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Comemoração do Dia do Município das Lajes do Pico – 29 de junho de 2020

Categoria: Comunicações Oficiais
Publicado em quinta, 02 julho 2020, 16:40
Atualizado em quarta, 08 julho 2020, 16:44

Comemoração do Dia do Município das Lajes do Pico – 29 de junho de 2020O Pico é uma espécie de outro mundo que não é do nosso mundo.

Ilha jovem, de semblante cinza e negro, com uma beleza que é só dela, e a torna única no arquipélago, o Pico é uma espécie de grande panteão vulcânico dos Açores. Constitui, por isso, o exemplo acabado da ação da geografia sobre o curso da história, realidade que determina a individualização do modo de vida das suas gentes.

O Pico, geologicamente e historicamente, começou por aqui. O Concelho das Lajes do Pico, constituído pelas freguesias da Ribeirinha, da Piedade, da Calheta de Nesquim, das Ribeiras, das Lajes e de São João, criado em 1501, foi o 1º da ilha. O povoamento, dos finais do séc XV, iniciou-se pelas freguesias das Lajes e das Ribeiras. O abastecimento de água terá determinado a fixação de gentes junto às inúmeras ribeiras, grotas, grotinhas e grotões que abundam nestas localidades. O Concelho reproduz e condensa, ainda, na sua paisagem natural e cultural, essa matriz embrionária, que lhe vem na massa do sangue da geografia e da história. É esse o seu carácter, a sua personalidade mais distintiva.

Sempre que remexemos no berço ficamos toldados por dentro e por fora. Misto de feitiço e de quebranto é nesse leite materno e nessa seiva do chão que nos vemos ao espelho, nos reencontramos connosco e nos reinventamos como Povo e como Comunidade.

Precisamos, pois, permanentemente, de fazer essa viagem mental, essa peregrinação cultural, concreta e imaginária, mítica e real, às nossas fundações, no espaço e no tempo. Mas com o presente e o futuro sempre no bico da proa.

Por mais que naveguemos pelo grande e admirável mundo redondo, é sempre no chão da nossa terra que enxertamos as puas da nossa essência mais profunda. Por isso, triste e pobre é o povo que não se celebra, não se comemora. Esquecido de si próprio, estará condenado ao desfalecimento e à perda de identidade. Transformar-se-á num povo doente, anémico e sem músculo.

Celebrando-nos em tempos de pandemia, de sofrimento, de incerteza, de medo e de morte, homenageamos, também, todos os nossos antepassados que, ao longo de quase seis séculos, enfrentaram, isolados, abandonados e desprotegidos, no meio do mar, com a resiliência e a coragem que sempre nos foram reconhecidas, tempestades, furacões, ciclones, naufrágios, epidemias, fomes, medos, tragédias e mortandades. Hoje, revisitando esses “contrabandos originais”, esse calvário secular de sofrimentos e de provações, precisamos dessa força antiga que nos fez chegar até aqui.

Mas não nos podemos pensar se esquecermos as raízes. Sem elas morremos. Celebrar, comemorar, é descer à raiz. Não há troncos, nem ramos, sem raízes; nem frutos sem sementes. E o todo é feito das partes. Cada habitante é uma expressão viva do Concelho, como um todo, e deve ser chamado a sentir-se responsável por ele. Não há viagens sem tempestades. Não há história sem crises. No caminho de um povo, de uma comunidade, cada geração é chamada a viver tempos bons e maus. Épocas de fortuna e de sucesso, e, também, de infortúnio e de desgraça. Horas de bonançaria e travessias tempestuosas. A história não é uma linha contínua. É feita de avanços e recuos, progressos e retrocessos, evoluções, ruturas e recomeços. O importante é que as comunidades se mantenham unidas em torno dos valores humanos essenciais, e disponíveis para lutar por eles, sem nunca se deixarem transformar, por cinismo, por inércia, ou por maldade, em crónicos peregrinos da impotência.

Mas as raízes são frágeis. Sujeitas aos efeitos da globalização, da massificação cultural e das mudanças do mundo, podem secar e morrer. Por isso, precisamos, todos juntos, de cuidar das nossas raízes.

Amar uma terra, celebrá-la, é ser capaz de manter uma eterna e lúcida compaixão e fraternidade por ela. Amá-la no sucesso e na fragilidade. Amá-la sempre, comprometidamente. Lutar por ela, cuidar dela. É essa a verdadeira missão de uma comunidade como a nossa.

Comemorar o Dia do Município é, portanto, confirmar e firmar o nosso pacto histórico com a comunidade e com as suas raízes profundas. A partir dessa herança comum, precisamos de sentir que fazemos parte uns dos outros, e do todo. Que temos de nos empenhar, de alma e coração, na melhoria solidária e fraterna da vida comum, da vida de todos, rejeitando a cultura da indiferença e da exclusão. Uma comunidade enfraquece e empobrece quando esquece a dimensão humana – o homem é o centro de tudo -, quando se esquece da justiça social, quando abandona a luta pela correção das profundas e desumanas diferenças sociais, que nos afastam uns dos outros, quando se centra em alguns e abandona os últimos à sua sorte. Sem fraternidade e compaixão social, morrem as velhas raízes, e torna-se impossível lançar novas raízes.

Precisamos de reabilitar e fortalecer o pacto intergeracional e comunitário. Precisamos uns dos outros e do contributo de todos, porque todos, em conjunto, são necessários e imprescindíveis.

A nossa terra é uma das grandes paixões da nossa vida. Aprendamos, esforçando-nos, a amá-la até ao fim. Mantenhamos viva e incandescente essa chama. Não deixemos, por descrença e por ceticismo, que ela se apague e morra dentro de nós.

Quando falamos de amor e de paixão pela nossa terra, que aqui celebramos, ao comemorarmos os 519 anos do Concelho das Lajes do Pico, fazemo-lo sem bairrismos atávicos e provincianos, sem complexos de grandeza e de menoridade, sem narcisismos excessivos, ou doentios. Mas numa grande viagem, de mais de cinco séculos, como num grande Amor, temos de fazê-lo com a lucidez, a autoestima e o amor próprio de quem gosta de si, e se respeita, quando se vê ao espelho do tempo.

Manuel Francisco Costa Júnior
Presidente da Assembleia Municipal das Lajes do Pico

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